Antes das fogueiras de Dark Souls, das caçadas de Bloodborne e dos combates de Armored Core, a FromSoftware começou sua trajetória nos videogames com corredores subterrâneos, espadas e uma atmosfera de isolamento.
King’s Field foi lançado no Japão em 16 de dezembro de 1994 para o primeiro PlayStation. Era o primeiro jogo publicado pela empresa e o início de uma série que ajudaria a formar sua identidade.
Revisitar essa estreia permite reconhecer ideias que continuariam aparecendo em seus trabalhos: exploração cuidadosa, ambientes ameaçadores e a satisfação de descobrir o caminho por conta própria.
De softwares empresariais aos videogames
A FromSoftware não nasceu como uma desenvolvedora de jogos. Antes de King’s Field, trabalhava com aplicativos voltados a outras atividades.
Em uma entrevista de 2001, o produtor e designer Shinichiro Nishida explicou que a empresa queria lançar suas próprias criações e enxergou no PlayStation uma oportunidade.
A escolha foi desenvolver um RPG com gráficos poligonais, aproveitando as possibilidades de um console que ainda estava chegando ao mercado.
Era uma aposta ambiciosa para uma equipe que estreava comercialmente nos videogames.
Uma aventura sob o reino de Verdite
King’s Field é um RPG de ação em primeira pessoa ambientado em uma tumba subterrânea no reino de Verdite.
A perspectiva coloca o jogador diante dos perigos, sem mostrar seu personagem inteiro na tela. Armas, criaturas e corredores são observados diretamente pelos olhos do protagonista.
Em vez de grandes paisagens abertas, a aventura se organiza em espaços fechados, passagens e áreas que precisam ser reconhecidas aos poucos.
Explorar significa construir uma compreensão daquele lugar: lembrar uma bifurcação, investigar uma parede suspeita e encontrar conexões entre caminhos.
A solidão fazia parte da proposta
Segundo Nishida, o então presidente Naotoshi Zin queria provocar uma sensação de solidão.
Isso ajuda a explicar a apresentação pouco acolhedora. O jogo oferece orientações limitadas e exige iniciativa para compreender como avançar.
A ausência de explicações extensas também teve relação com o cronograma de produção. Na mesma entrevista, Nishida contou que a equipe não teve tempo para criar um tutorial.
O resultado mistura uma intenção de atmosfera com as condições práticas do desenvolvimento. Nem toda característica nasceu de uma decisão calculada, mas várias contribuíram para uma experiência reconhecível.
Um combate que exige atenção
O ritmo de King’s Field pode surpreender quem conhece apenas os jogos mais recentes da empresa.
A movimentação e os ataques são lentos, e o jogador precisa considerar distância e recuperação de energia. Golpear repetidamente não é necessariamente a melhor resposta.
As barras de poder influenciam o uso de armas e magia. Observar sua recuperação faz parte da administração do combate.
Essa estrutura favorece uma alternância entre aproximação, ataque e recuo. O desafio está em compreender os limites do personagem e agir dentro deles.
O primeiro King’s Field não é o mesmo em todas as regiões
Existe uma confusão importante na numeração da série.
O King’s Field original, de 1994, não recebeu lançamento oficial no Ocidente. Já King’s Field II, lançado no Japão em 1995, chegou a mercados ocidentais com o nome simplificado de King’s Field.
Por isso, alguém que jogou um título chamado King’s Field em inglês pode ter conhecido, na verdade, o segundo jogo japonês.
Ao pesquisar a estreia da FromSoftware, vale conferir o ano e a região da edição. Eles ajudam a identificar qual aventura está sendo mencionada.
O que ele tem em comum com os Souls?
É possível reconhecer semelhanças de abordagem: a vulnerabilidade do jogador, a exploração de lugares hostis e a descoberta de informações por meio dos ambientes e de seus habitantes.
Essa comparação não transforma King’s Field em um Dark Souls antigo. A perspectiva, os controles e o ritmo oferecem uma experiência própria.
Também é importante separar as equipes e os períodos: King’s Field foi lançado anos antes de Hidetaka Miyazaki entrar na FromSoftware.
Sua relevância está em mostrar que parte do interesse do estúdio por fantasia sombria e exploração já existia antes dos Souls.
Uma estreia que abriu caminho
King’s Field não apresenta a escala ou o acabamento dos trabalhos modernos da FromSoftware. Seus controles e sua apresentação carregam as características de uma produção do início do PlayStation.
Ainda assim, seu valor histórico ultrapassa a curiosidade de conhecer o primeiro lançamento da empresa.
Nos corredores de Verdite, já aparece uma relação entre insegurança e descoberta: avançar exige aprender a observar um mundo que não explica tudo.
Foi com essa aventura subterrânea que a FromSoftware começou a construir sua história nos videogames.
Fontes: https://www.fromsoftware.jp/ww/detail.html
https://www.gamesradar.com/kings-field-how-fromsoftwares-first-game-started-a-cycle-edge-magazine
